Dr. Ciro Mancilha Murad | Cardiologista

Transplante Cardíaco: saiba tudo sobre este procedimento

Transplante Cardíaco: saiba tudo sobre este procedimento

O transplante cardíaco é um procedimento médico que envolve a substituição de um coração doente por um coração saudável de um doador. Esse tipo de cirurgia é geralmente feito quando o coração de uma pessoa não consegue mais funcionar adequadamente, apesar de vários outros tratamentos já tentados e o paciente corre risco de vida devido à falência cardíaca.

Neste post falaremos tudo sobre o transplante cardíaco: quando é indicado, como funciona a listagem, como é a cirurgia, cuidados pós-operatórios e cuidados ao longo da vida.

Transplante cardíaco: quando é indicado?

Em termos simples, o transplante é indicado para pacientes com insuficiência cardíaca refratária aos demais tratamentos tentados.

A insuficiência cardíaca é uma doença no qual o coração tem dificuldade para bombear o sangue e oxigenar os tecidos do corpo. Pode ter diversas origens (doença das valvar cardíacas, obstruções das artérias coronárias, doenças genéticas, etc). Veja mais sobre insuficiência cardíaca aqui.

Por se tratar de uma cirurgia de muito grande porte, que envolve enormes mudanças na vida dos pacientes, o transplante nunca é a primeira opção de tratamento da insuficiência cardíaca. Inicialmente são tentados medicamentos, marca-passo ou até outras cirurgias. Veja mais sobre as opções de tratamento da insuficiência cardíaca aqui.

Com o tratamento moderno da insuficiência cardíaca, muitos pacientes têm melhora de sintomas e da função cardíaca. Todavia, um grupo de pacientes persiste com sintomas limitantes e com grave comprometimento da função cardíaca – neste caso um transplante deverá ser considerado.

Alguns pacientes têm um comprometimento tão grave da função do coração que necessitam de medicações venosas para aumentar a força de contração do coração (exemplo: dobutamina) e necessitam ficar internados recebendo esta medicação até surgir um doador disponível para transplante. Outros pacientes têm uma limitação enorme para realização e suas atividades de dia a dia, e frequentemente são internados por descompensação da doença. Seguem abaixo algumas indicações comuns de transplante:

  • Pacientes dependentes de medicações venosas para aumentar a força do coração (“inotrópicos).
  • Pacientes com sintomas limitantes de insuficiência cardíaca e internações frequentes.
  • Pacientes com dor no peito refratária por obstruções coronarianas (apesar de cirurgias e angioplastias)
  • Pacientes com arritmias refratárias
Doctor visiting senior couple

Transplante cardíaco: avaliação e seleção dos candidatos.  

O coração é um recurso extremamente nobre e escasso. Obviamente não pode ser “fabricado” e depende exclusivamente da boa vontade de famílias doadoras.

Sabemos também que existe uma grande desproporção entre a quantidade de pacientes em fila de transplante e a quantidade de órgãos disponíveis. Por todos esses motivos, a escolha dos receptores de transplante cardíaco deve ser muito criteriosa, visando selecionar os pacientes com maior probabilidade de se beneficiarem do tratamento.

Por isso, pacientes muito idosos ou com doenças graves em outras partes do corpo geralmente não são selecionados. Também é importante realizar uma extensa avaliação da possível presença de algum tipo de tumor no corpo – o câncer além de limitar a expectativa de vida, pode crescer mais rápido com os imunossupressores usados após o transplante cardíaco.

Transplante cardíaco: como funciona a listagem?

Após o cardiologista definir que o paciente tem indicação de um transplante cardíaco sem nenhum impeditivo ou contraindicação, ele será colocado em uma lista, como o status ativo.

A posição nesta lista e quando será disponibilizado um órgão para o paciente depende de diversos fatores, entre eles:

  • Priorização:  pacientes internados, dependentes de medicações venosas, dispositivos de suporte ao coração ou arritmias refratárias entrem em status de prioridade.
  • Tempo de fila: pacientes listados há mais tempo receberão ofertas primeiro (dentro de sua respectiva prioridade)
  • Tipo sanguíneo: órgãos são disponibilizados apenas para receptores compatíveis conforme o sistema ABO de tipagem sanguínea.
  • Compatibilidade imunológica: além da tipagem do sistema ABO deve haver compatibilidade do sistema HLA (específico para transplantes).
  • Peso: quando um paciente é colocado na lista de transplante é definido um peso mínimo aceito. Portanto um paciente muito grande não poderá receber coração de um doador de baixo peso.

Por exemplo: imagine um paciente que acabou de internar por uma grave insuficiência cardíaca, e precisou de medicações endovenosas, dispositivos para ajudar o coração e até dispositivos de circulação extracorpórea. Este paciente entrará em prioridade máxima, e provavelmente receberá um doador antes de pacientes que estão em casa esperando.

Por outro lado, imagina um doador de grupo sanguíneo tipo B. Este órgão só poderá ser disponibilizado para pacientes do grupo sanguíneo B ou AB. Por isso, neste caso, um receptor do grupo B poderia receber um órgão antes de um receptor do grupo O que estava há mais tempo na fila.

Por todos estes motivos, a posição na lista não é linear, e pode acontecer de um paciente que acabou de entrar na lista receber um coração antes de um paciente que já está na lista há vários anos. De toda forma, o sistema é justo, equitativo, extremamente confiável e bem regulado.

Transplante cardíaco: como é a cirurgia?

  • Tempo de isquemia:

Um dos fatores críticos para o sucesso do transplante cardíaco é que o tempo de isquemia. Este é o tempo que decorre entre a retirada do órgão do doador e o implante no receptor. Neste período, o órgão fica sem receber irrigação sanguínea, e quando este período excede 4h, os resultados após a cirurgia muito são piores. Por este motivo deve haver uma grande sincronia entre a equipe que irá fazer a retirada do órgão e a equipe que fará o implante.

  • Técnica cirúrgica:

O coração é retirado do doador e implantado no receptor através de quatro pontos de incisão. Veia cava superior e inferior, átrio esquerdo, artéria pulmonar e artéria aorta. Veja na figura abaixa:

  • O que esperar durante a cirurgia?

Um transplante cardíaco é uma cirurgia longa e complexa, portanto é esperado que o paciente passe praticamente o dia ou a noite todo no centro cirúrgico. O paciente irá receber anestesia geral (portanto irá dormir todo o procedimento). Para que a cirurgia ocorra, ele será conectado em um aparelho de circulação extracorpórea que irá manter o sangue oxigenado durante todo o procedimento. Após término da cirurgia, o paciente será encaminhado a UTI, geralmente entubado e recebendo medicações venosas para auxiliar na contratilidade do coração.

  • Pós-operatório imediato

A maioria dos pacientes são extubados algumas horas após a cirurgia, caso não ocorra nada mais grave. A permanência na UTI gira em torno de 5 dias a uma semana. Este período é fundamental para vigiar ocorrência de sangramentos, infecções e a adaptação do novo coração.

Transplante cardíaco: cuidados de longo prazo.

Após o transplante cardíaco pacientes terão que tomar imunossupressores o resto da vida. Estas medicações impedem a ocorrência de rejeições, mas também deixam o sistema imune um pouco mais sujeito a infecções. Portanto cuidados como uso de máscaras quando indicado, vacinação e cuidados com higiene são fundamentais para prevenção de infecções.

Além disso, a maior parte dos pacientes terá que tomar diversos medicamentos além dos imunossupressores, principalmente durante o primeiro ano, portanto organização e adesão medicamentosa é fundamental.

Após a alta hospitalar, você terá consultas e exame com certa frequência, por isso é você deverá permanecer próximo do centro transplantador por 3 a 6 meses.

Após o primeiro ano, o risco de complicações diminui bastante, e a maioria dos pacientes terá um ganho enorme de expectativa e qualidade de vida. Muitos pacientes inclusive conseguem retomar suas atividades de vida cotidiana como trabalho e até esportes.

A taxa de sobrevida após o transplante varia muito de acordo com vários fatores, mas gira em torno de 90% no primeiro ano e 80% após 5 anos.

Saiba mais:

  1. https://vidasaudavel.einstein.br/transplante-de-coracao/
  2. https://www.mayoclinic.org/tests-procedures/heart-transplant/about/pac-20384750
  3. https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saes/snt

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Dr Ciro é médico cardiologista com especialização em Insuficiência Cardíaca e Transplante pela USP. Faz parte grupo do de Transplante Cardíaco do Hospital Israelita Albert Einstein

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